O título do blog é referente a cada um dos dias do ano em que fotografei e escrevi algo e postei por cá.
Todo dia ele será atualizado, com uma foto e um textinho feitos no dia, e que vai variar de acordo com o tempo,
a paciência e os sentimentos envolvidos no momento.
Espero que gostem, se envolvam, opinem, compartilhem experiências similares, enfim, interajam com as postagens.
E divulguem sempre que puderem e acharem que é válido!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

17º dia.


Câmera: Canon EOS Digital Rebel XSi
Exposição: 0,3 s
Abertura: f/3.5
Distância focal: 18 mm
ISO: 1600
Horário: 22:27:14
Local: Casa de Eve em Juazeiro-BA

Clique aqui pra ver a foto em tamanho maior


Só peço a essa chuva que caia, devagar, mas caia; forte, localizada, espalhada, nas cabeceiras, nas nascentes, nas encostas, morros, campos, cidades, mato, rua. Caia. O sertão clama pelo cheiro úmido das colônias de Streptomyces liberando seus esporos reprodutivos ao ar, o que empiricamente conhecemos como cheirinho de chuva. As trovoadas soam no horizonte escuro, embebendo de esperança quem admira o entardecer praticamente às 14 h da tarde. Aquele sopro de alegria que emana do homem sofrido da caatinga ao ver correr água na bica, enchendo de prazer a cisterna do seu coração. É quando tudo se renova, tudo se enriquece de vontades e desejos e anseios, o trabalhador não dorme crendo que o amanhã será o dia em que vai semear a terra recentemente mais seca do que seus próprios desgostos. E ela cai, e cai bem, bonita, saudável, limpando o ar, o chão, varrendo o terreiro, encharcando a terra esquecida pelo arado, inundando os tanques de baixadas. Nada agrada mais o sofrido sertanejo do que ver sua manga cheia de capim e cabeças de gado, ver os pássaros cantarolando a alegria de um novo tempo. Acordar na madrugada e tirar leite das vacas, soltar os bodes, que irão correr certamente para os umbuzeiros mais doces, sabendo que no chão encontrará comida farta. Acender o fogo, aquecer a lenha molhada da chuva da noite anterior, colocar pó de café no bule e ver o leite beirando a derramar com a fervura. Preparar o alforge com farinha de mandioca e rapadura, uns pedaços de carne do sol e um café preto abandonado no fundo de um quente-frio, meio sem açúcar... Tomar uma coalhada com farinha e um pão dormido com café preto, levantar, pôr tudo no aió e se mandar pra o campo, preparar a lavoura, sonhar com a colheita e tempos fartos. E uma simples chuva é capaz de despertar tamanha felicidade: inestimável, indescritível, fato. O que sabemos mesmo é que um cachorro vai acompanhar o nosso Jão em sua ida pra roça, que ele vai ter uma Maria lhe esperando de volta em casa, ao aconchego, à vida real. E abençoada é a porção de terra em que cai, do céu, a fartura que toma conta dos seres que nela habitam. E observar a chuva cair imaginando como anda meu sertão é um gosto que invade meu consciente, e me enlouquece de ansiedade pra correr pra ele e sentir minha infância passando diante dos meus olhos. 

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